Conscientizar a população e preparar a saúde pública para diagnosticar precocemente um futuro quadro de problemas renais, está entre as principais armas da comunidade médica para conter o avanço da doença e onde estão concentrados os maiores esforços atuais da nefrologia. As medidas que estão sendo tomadas neste sentido estarão no centro das discussões do 27º Congresso Brasileiro de Nefrologia, que deve reunir duas mil pessoas no Expominas, em Belo Horizonte, entre hoje e sábado.

O grande incentivo para reforçar a campanha pelo diagnóstico antecipado veio do Ministério da Saúde, que publicou, em março deste ano, a portaria 389, que de ne os critérios para a organização das novas regras de atendimento aos pacientes. Elaborada em parceria com a SBN, a linha de cuidado da pessoa com doença renal crônica pretende transformar o diagnóstico precoce, o acompanhamento na atenção básica, e o direcionamento para as unidades especializadas em doença renal crônica em uma rotina do Sistema Único de Saúde (SUS).

Quinze milhões de brasileiros têm algum grau de comprometimento das funções renais, mas apenas 100 mil sabem. Essa é justamente a parcela da população que está em diálise e descobriu a doença tarde demais, somente quando sintomas como anemia, fraqueza, edema ou sangue na urina começaram a surgir. Silenciosa, a doença renal crônica caminha para se tornar uma das principais epidemias do século 21, na avaliação do diretor do Núcleo de Nefrologia de Belo Horizonte, José Augusto Meneses. Essa previsão ocorre justamente pela relação com outras enfermidades que a cada dia acometem mais brasileiros. “A hipertensão arterial e a diabetes são os principais fatores de risco para o desenvolvimento de doença renal crônica”, pontua o especialista.

 

Entre os 7 milhões a 10 milhões de diabéticos brasileiros, um terço deverá apresentar perda progressiva da função renal, segundo estimativas da Sociedade Brasileira de Nefrologia (SBN). “Um em cada seis hipertensos também podem apresentar a evolução deste quadro. Hoje são 30 milhões no Brasil”, estima o presidente da SBN, Daniel Rinaldi dos Santos. Há que se considerar ainda a obesidade, o histórico familiar – não apenas de doença renal como também de diabetes e hipertensão –, tabagismo, consumo de anti-in amatórios não hormonais, dieta rica em proteína animal e sal e até o envelhecimento como agravantes para uma possível disfunção dos rins.

“O pro ssional de atenção básica será orientado a fazer o diagnóstico através da interpretação dos exames de urina e creatinina. Nas fases iniciais, poderão adotar medidas para evitar a progressão da doença por meio do controle da pressão arterial, do diabetes, colesterol e proposta de mudanças de hábito”, explica Daniel Rinaldi. “Se o problema for detectado nas fases mais avançadas, ele irá encaminhar o paciente para uma equipe multidisciplinar que, além do nefrologista, ainda contará com psicólogo, nutricionista e enfermeiro”, acrescenta o presidente da SBN. Cerca de 1 mil pro ssionais já foram identi cados e deverão passar por treinamentos ministrados pelas universidades parceiras.

Descobrir a doença antes que atinja a fase crônica e evolua para a diálise é fundamental na garantia de qualidade de vida do paciente – que passa a frequentar a diálise três vezes por semana – e desafogar o sistema de saúde pública. “Atualmente a diálise consome 3% do orçamento do Ministério da Saúde apenas para tratar essas 100 mil pessoas. São mais de R$ 2 bilhões por ano”, calcula Rinaldi.

Pessoas que se identi caram como integrantes dos grupos de risco devem fazer a sua parte. “É importante procurar um posto de saúde familiar ou um clínico e pedir que sejam feitos os exames”, orienta José Augusto. Um deles é o exame comum de urina no qual pode ser identi cada a presença de proteína, um indicativo de que algo está errado. “O outro é o de dosagem da creatinina”, lembra Daniel.

Identi cada precocemente, a doença pode ter sua evolução retardada e até evitada. “Para isso, o paciente deverá controlar a pressão, a glicemia e evitar excessos alimentares. Se zer isso, pode ser que a doença nem mesmo evolua e, se isso ocorrer, será de forma mais lenta”, explica

Rins

Avanços esperados

O Congresso Brasileiro de Nefrologia irá contar com a participação de especialistas e estudiosos do mundo todo em torno de temas importantes para a evolução do tratamento e diagnóstico. “Foi levantado recentemente que o cálculo renal, ou as pedras nos rins, é fator de risco para o infarto agudo do miocárdio, para diabetes e hipertensão. Pode ser um prenúncio para todas essas doenças”, a rma José Augusto Meneses, presidente do Congresso.

Segundo o especialista, esse elo começa a ser discutido com mais intensidade e pode ser um aviso do corpo para complicações futuras. “Essa relação é importante para que se tomem medidas preventivas e não apenas se trate o cálculo. É preciso fazer um estudo metabólico para saber a causa do problema e evitar o aparecimento dessas outras doenças”, pondera. Vale lembrar que diabetes e hipertensão são os principais fatores de risco para a doença renal crônica.

Outro tema que está em alta é a regeneração de células renais em células-tronco. “Com isso, teríamos condições de, ao invés de fazer um transplante, regenerar o rim. Os estudos ainda estão em fase laboratorial”, a rma José Augusto. As inscrições para participar do congresso poderão ser realizadas no local.

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Técnica avalia chance de pacientes voltarem a ter pedra nos rins

A retirada de pedras acumuladas nos rins é um procedimento conhecido como doloroso e de alta incidência na população. Por isso, um medo de quem já passou pelo problema é que os cálculos surjam pela segunda vez. Para prever as chances de isso acontecer, pesquisadores americanos elaboraram um questionário que, ao abordar os hábitos comportamentais e o histórico de saúde dos pacientes, poderá ajudar os médicos a avaliar quais correm risco de desenvolver as pedras novamente.

Relatos de pacientes que se submeteram ao procedimento foram a principal motivação dos pesquisadores, que buscaram um modo de prevenir o cálculo renal recorrente. “Após a dolorosa experiência de uma cirurgia para retirar as pedras, muitos querem saber se é provável que isso aconteça novamente”, destaca Andrew Rule, pesquisador e médico do Hospital Mayo Clinic e um dos autores do estudo. Rule explica que saber dos riscos de o cálculo se formar novamente pode facilitar o tratamento. “Se soubermos quais pacientes apresentam grande probabilidade de ter outra pedra no rim, então poderemos aconselhá-los melhor quanto a dietas e medicamentos capazes de prevenir o problema”, complementa.

O especialista explica que o cálculo é formado por pequenos cristais, que podem ser encontrados tanto nos rins quanto em outro órgão do trato urinário. Nesses casos, o cálcio presente no organismo pode se combinar a outras substâncias, como oxalato, fosfato ou carbonato, e formar pequenos cristais que, aglutinados, constituem o cálculo renal. Histórico familiar aumenta a propensão a desenvolver as pedras, além de hábitos como não beber muita água. Pessoas que vivem em regiões quentes ou que suam muito estão dentro do grupo de risco, assim como aquelas que ingerem dietas ricas em proteína, sal e açúcar.

Perguntas

Para elaborar o questionário, a equipe do médico analisou prontuários de 2.239 adultos que tiveram pedra nos rins, sendo que, desses, 707 retornaram ao consultório devido ao mesmo problema. Com as informações coletadas, os pesquisadores elaboraram 11 perguntas, incluindo dados a respeito de idade, sexo, histórico familiar, além de pontos especí cos dos sintomas, como presença de sangue na urina. Os cientistas contam que, pelas respostas, é possível saber com precisão a probabilidade de uma pessoa ter uma outra pedra renal sintomática em dois, cinco ou dez anos após a primeira ocorrência. “Estamos focados em pacientes que, anteriormente, tiveram apenas um episódio de cálculo renal. Aqueles que passaram por diversas ocorrências já estão em alto risco”, complementa Rule.

Para Daniel Rinaldi dos Santos, presidente da Sociedade Brasileira de Nefrologia (SBN), o questionário dos cientistas americanos pode auxiliar os médicos da área. Ele diz que, no Brasil, frequentemente os pro ssionais já adotam uma estratégia semelhante. “A diferença é que, agora, teremos uma pontuação, que pode apontar as chances de o paciente desenvolver a doença novamente, em níveis percentuais”, destaca.

Santos acredita que o questionário pode ser uma ferramenta de ajuda na área médica, mas alerta que, caso venha a ser adotado no Brasil, precisa ser adaptado para as características do país. “ A forma pela qual você avalia cada paciente é diferente e necessita de parâmetros baseados nos costumes locais. Sabemos que até a temperatura ambiente pode in uenciar a incidência da doença. No Brasil, por exemplo, temos que considerar o clima quente, que agrava o cálculo renal. Já a alimentação, nos EUA, é diferente; os americanos consomem mais refrigerante, o que também provoca a doença, e aqui já não temos esses números altos do consumo de bebidas doces”, exempli ca.

Maria Letícia Azevedo, nefrologista e coordenadora de transplante renal do Hospital Santa Lúcia, também acredita que a pontuação fornecida pelo sistema desenvolvido pelo Hospital Mayo Clinic poderá ajudar a prever uma segunda ocorrência de cálculo renal. “Já sabemos que, ao ter um histórico familiar de pedra nos rins, as chances de alguém desenvolver o problema de forma recorrente são grandes. Essas são perguntas que nós abordamos em consultório médico, porém, com o auxílio de uma pontuação mostrada nesses normogramas (nome que usamos para de nir esse tipo de questionário), teremos formas de elaborar grá cos que mostrem dados mais pertinentes quanto à doença”, destaca a especialista.

Ela também diz que, devido à alta ocorrência da doença, o acompanhamento periódico dos pacientes pode ser prejudicado, principalmente na rede pública, onde a espera por consulta é maior. “Temos muitos pacientes nessa situação. Por isso, é importante ter ferramentas que facilitem